quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Simbiose - Trapped

Depois do muito bem sucedido “Economical Terrorism” os Simbiose regressam com “Trapped” um álbum que vem marcar várias mudanças na banda e a meu ver uma nova fase. É o primeiro álbum depois do “Bounded In Adversity” a ser editado novamente pela Anti-Corpos e o primeiro depois do “Fake Dimension” a não ser produzido pelo sueco Ulf Blomberg, é também o primeiro álbum da banda apenas com um vocalista principal, o Jonhie. Muito pouca gente fala nisto mas parece-me haver uma sucessão lógica e contínua dos álbuns de Simbiose quando por exemplo em 2007 se fala duma suposta evolução (“Evolution?”) que levou a uma dimensão ilusória (“Fake Dimension”) que por sua vez permitiu o desenvolvimento dum terrorismo económico (“Economical Terrorism”) sem precendentes que levou as pessoas (como a própria banda referiu) a estarem presas, de terem chegado a uma fase em que já não há nada a fazer, pela crise, pelo roubo e pelas injustiças e é disso que fala por exemplo o tema “Abismo” (e não só).

“Trapped” perfaz quase 40 minutos de Crust embebido em muitos riffs de Metal e é a meu ver o álbum mais melódico da banda desde o “Bounded In Adversity” de 2004, menos directo e agressivo que o “Economical Terrorism” mas por outro lado mais elaborado, técnico e cuidado, com uma adaptação a uma voz bastante bem conseguida e esse seria um dos principais obstáculos da banda mas que foi, e bem, ultrapassado. Os temas, como já manda a tradição, vão alternando entre o português e inglês mas neste álbum predominam os temas lusos. O grande destaque do álbum vai para a dupla de guitarristas e para os seus riffs contagiantes e muito bem elaborados que reflectem aqui uns quase 25 anos de experiência nestas andanças e isso ouve-se logo no tema “Ignorância Colectiva” um dos temas que fica logo no ouvido e claro um dos melhores deste registo. 

“Acabou A Crise, Começou A Miséria” é claramente o melhor tema do álbum e tem tudo para alinhar na lista de clássicos de Simbiose, pelo main riff excelente, pela letra (como sempre) realista e claro pelo refrão brutal com uns acordes de guitarra de fundo arrepiantes! “Deixós Falar…” e “Infant Gas Mask” são possivelmente os temas mais directos e agressivos do álbum. “Abismo” é mais um tema excelente onde a banda revela estar em grande forma tanto em termos líricos como musicais com uma letra e um instrumental espectaculares (vejam o video clip para perceber melhor a história). Felizmente não se encontram temas menos bons e é por isso que “Trapped” se torna um álbum tão interessante, o tema-título é o mais bem conseguido em inglês já “Será Que Há Morte Depois Da Vida?” fala de retóricas do campo psicológico e religioso algo que não é muito comum nas letras da banda. Os riffs de “Modo Regressivo”, as melodias de “Consciencialização” e “Don't Play Dead” e a raiva de “(A)pagar” são extremamente viciantes. “Fallout” e “Quem Vai Ganhar?” são os últimos temas do álbum e este último é uma grande crítica ao conflito israelo-palestino.

“Trapped” foi sem dúvida um dos melhores discos nacionais de 2015 e um passo muito importante na carreira de Simbiose. Foi editado pela Anti-Corpos em CD Digipack e LP em parceria com outras editoras estrangeiras a Criminal Attack Records, Deviance Records, Apathy Never, Punk Vortex, Tanker Records e a Neanderthal Stench. A banda ruma agora numa nova e ambiciosa tour pelo Brasil, país que os recebeu muito bem em 2008 onde na altura promoviam o clássico “Evolution?”, agora é a vez de “Trapped” pisar o solo sul-americano onde se comemoram também os 25 anos de Simbiose.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Entrevista: Alcest

A história dos Alcest começa por volta de 1999 como uma banda de Black Metal, o que é que os levou a passar para um estilo mais alternativo e Shoegaze?
A nossa cena não era de todo o Black Metal, eu [Neige] comecei a ouvir Black Metal quando era muito novo talvez quando tinha 14 ou 15 anos comecei a ouvir sons cada vez agressivos.


Portanto agora a tua onda já não é o Black Metal?
É assim continua a ser porque eu gosto de Black Metal mas quando faço música gosto de fazer algo mais. Gosto de Black Metal mas Alcest é muito mais que isso, de momento penso não voltar a fazer Black Metal com Alcest.


A música que fazes é influenciada por sonhos e experiências, como e em que sentido? São mesmo sonhos?
É assim não é como sonhar à noite, é algo mais espiritual que eu tive e é muito difícil de descrever e expressar o que vivi. Basicamente isso passou para a música porque é difícil de expressar por palavras. Quando eu era criança tinha visões e não percebia bem o que eram mas era algo verdadeiramente bonito e foi a melhor coisa que alguma vez experiencei e depois à medida que fui crescendo fui pensando em usar isso na música porque achei que era interessante.


Li algures que não gostavas de fazer o mesmo álbum uma e outra vez. Qual será a principal diferença entre o “Shelter” e o próximo álbum?
Sim é verdade. Vai ser muito diferente. Por um lado vai ter parecenças com material mais antigo já o processo de composição vai ser semelhante ao “Shelter”. O próximo álbum vai ser mais rítmico e bem diferente do “Shelter”. Assim como o “Les Voyages De L'Âme” foi diferente do “Shelter”, este vai ser diferente. Em termos líricos vai ser muito mais pessoal que o “Shelter” e temos um grande feeling em relação a ele e vai ser um registo muito importante para nós.


Vamos voltar a ouvir alguns gritos?
Eu penso que sim! [risos] Apesar de eu ter dito que já não ia gritar mais mas mudei a minha mente.


“Shelter” é um álbum sobre o Verão e a luz, existe alguma relação com o “Écailles De Lune” que falava da noite?
Sim! Eu diria que o “Shelter” e o “Écailles De Lune” ocorrem no mesmo lugar mas em diferentes alturas, um ocorre de dia e outro durante a noite.


E em relação ao “Souvenirs D'Un Autre Monde”?
Está 100% relacionado com o conceito das visões que tive, tal como o EP “Le Secret”. São os dois registos mais pessoais. O “Les Voyages De L'Âme” também é bastante pessoal mas dum modo diferente, vai mais de encontro ao conceito de Alcest porque no “Souvenirs D'Un Autre Monde” era mais novo e inocente o que torna o álbum mais especial enquanto o “Les Voyages De L'Âme” acaba por ser algo mais complexo porque passei por experiências que não tinha passado no primeiro álbum.


Para além das visões e experiências o que é que te influencia mais a compor? Que bandas e estilos mais te inspiram?
Depende de vários factores, o “Shelter” por exemplo foi fortemente influenciado por bandas de Shoegaze e outras como Dead Can Dance.


Já têm alguma ideia de quando irá sair o novo álbum?
Em princípio nos finais de 2016 e vai ter a mesma editora, a Prophecy Productions.


Qual é o teu álbum preferido de Alcest? Se tivesses de escolher só um?
Posso escolher dois? [risos] Escolho o “Souvenirs D'Un Autre Monde” e o “Écailles De Lune”. Também gosto muito dos outros mas quando tu és novo há algo de muito especial quando fazes música e acho que é precisamente isso que está a acontecer com o novo álbum, temos a mesma energia.


Hoje em dia vemos muitas bandas a tocar álbuns inteiros ao vivo, que escolherias para tocar?
Fizemo-lo uma vez no Roadburn Festival onde tocámos o “Les Voyages De L'Âme”. Vemo-nos na possibilidade de um dia tocar o “Souvenirs D'Un Autre Monde” ou o “Écailles De Lune”, é uma questão muito interessante


Este concerto [Reverence Festival Valada] não é o vosso primeiro em Portugal, como têm sido as experiências por cá? E quais as expectativas para hoje?
Acho que já demos quatro concertos cá, adoramos o país é muito bonito. Em relação a hoje não sabemos mas queremos dar um grande concerto e que as pessoas aproveitem ao máximo.


Conheces ou ouves alguma banda portuguesa?
Moonspell claro... E eu conhecia uma banda já há muito tempo mas não sei se ainda tocam, os InThyFlesh, conhecia-os porque toquei com eles há talvez 14 anos, com outra banda minha, eles são bastante antigos e bons.


Por último, gostavas de deixar uma mensagem aos fãs portugueses?
Sim. Esperemos que gostem desta entrevista e estamos muito felizes por voltar a tocar em Portugal. Obrigado!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Gorgásmico Pornoblastoma - Delírios De Um Defunto

Dizem que “Delírios De Um Defunto” é o novíssimo álbum de estreia dos sempre podres Gorgásmico Pornoblastoma e para quem os conhece já sabe mais ou menos o que esperar. Nada de produções requintadas ou arranjos bonitos, Grindcore à antiga influenciado pela velha escolha, leia-se aqui, Napalm Death, Brutal Truth e sobretudo Agathocles. Guitarra bem suja, voz imperceptível que debita podridão e nojo por todo o lado e claro, na bateria um panzer infernal com um arsenal de AK-47 sempre a disparar. “Apodrecer Lentamente” ou “Consunção entre actos de Violência” são temas que descrevem bem o que se vai ouvindo nestes 23 minutos de caos e destruição que vão do Punk ao Crust passando pelo Death Metal onde se vão também ouvindo alguns toques de Goregrind, as influências são muitas e é isso que torna o álbum tão cativante. Existe algo mais interessante que dois gajos a destruir uma sala de ensaios e gravarem-no para o povo ouvir? Julgo que não.

“Vingança”, “Canteiro de Cadáveres” ou “Porcos” são temas excelentes, abrasamento à antiga com uma velocidade impressionante, riffs podres, tarola bem audível, baixo bem distorcido e amplificadores bem altos! Ouvidos mais sensíveis e comichosos dirão que o produção do álbum é obsoleta mas o que seria um álbum de Grindcore sem uma (des)produção destas? O final fica ainda reservado para um remix meio que psicótico e arrepiante fugindo à sonoridade do álbum mas completando-o na perfeição. “Delírios de um Defunto” foi uma das grandes surpresas do ano que passou e sim, ainda vai sair em CD, pela habitual Helldprod, numa edição limitada a 500 cópias. Este álbum de estreia é uma amostra verdadeiramente fiel das actuações da banda ao vivo e os Agathocles portugueses sabem fazê-lo da melhor maneira. No bullshit. Just Grind!