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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Entrevista: A Dream Of Poe

Os A Dream Of Poe formaram-se em 2005, conta-nos um pouco do que te levou a iniciar o projecto nessa altura.
Eu sempre tive o desejo de iniciar um projecto onde me pudesse exprimir musicalmente sem estar sujeito aos gostos de cada músico. Em contexto de banda tens de ter em atenção o gosto pessoal de cada músico, tens de encontrar um meio-termo de forma a agradar a todos, o que por vezes resulta num produto final que poderá não ser aquilo que imaginavas, para o melhor ou para o pior. Assim em 2004/2005 foi quando comecei a pensar mais seriamente sobre iniciar um projecto a solo e a primeira experiencia surgiu em 2006 com o lançamento da Demo “Delirium Tremens”. Desde esta altura tenho apostado em A Dream Of Poe lançando diversos trabalhos ao longo destes anos. Contudo gostaria de salientar que isto não quer dizer que não goste de trabalhar como “banda”, muito pelo contrário, acho que quando todos trabalham para o mesmo objectivo trabalhar em banda consegue ser muito mais motivador que trabalhar a solo.


No ano passado editaram o EP “Lady Of Shalott” e foi com esse EP que surgiu o contacto com a ARX Productions, era esse o objectivo do EP? Encontrar uma editora?
Não era o único mas era, de facto, um deles. O objectivo principal era tentar criar algum interesse à volta da banda e do álbum que se seguiria. Felizmente pouco tempo depois do lançamento do EP fui contactado pela ARX Productions mostrando interesse em editar o “The Mirror Of Deliverance”.



Estão satisfeitos com o trabalho da editora? Como é que está a ser a distribuição do novo álbum?
Primeiro que tudo tenho de salientar que a ARX não é uma Nuclear Blast nem nada que se pareça, assim sendo, e dado o estatuto mais underground da mesma, estamos muito satisfeitos pois a editora tem cumprido com o que se comprometeu. A distribuição está a cargo exclusivamente da ARX que tem conseguido colocar o nosso CD à venda nos quatro cantos do mundo. De inicio ainda tentei acompanhar este processo, mantendo-me atento e informado sobre quais as editoras e distribuidoras estão a distribuir o álbum, mas tendo a responsabilidade de gerir outras coisas em torno da banda acabei por me desligar um pouco da distribuição.


Como decorreu o processo de gravação e produção do mesmo?
Uma vez que foi gravado no meu estúdio em casa, posso dizer que foi um processo muito natural e tranquilo. Graças a esse facto consegui desenvolver este trabalho sem qualquer tipo de pressões e ao meu ritmo.


A parte lírica dos temas tem como principal inspiração a literatura de Edgar Alan Poe. Qual é o conceito envolvente?
Nesta questão o ideal é dar a palavra ao Paulo Pacheco, letrista de A Dream Of Poe: No “The Mirror Of Deliverance”, houve um afastamento temático em relação às obras de Poe de modo a explorar outras vertentes. Basicamente, no álbum é feito um estudo sobre a regeneração do espírito humano como um processo alquímico, contado através de dois personagens que simbolizam os opostos e a sua consequente união. É, portanto, um pequeno tratado místico sobre a condição humana e o processo que se desenrola ao dar-se a Iniciação nos Mistérios, na busca da Verdade através da elevação espiritual que é a própria criação da Pedra Filosofal. Como influências para a escrita das letras refiro Manly P. Hall, Jack Parsons e Aleister Crowley para além de tradições como o Rosacrucionismo e Maçonaria.


“Os Vultos” é o vosso primeiro tema cantado em português e é bastante emocional e comovedor, num próximo trabalho iremos ouvir mais temas em português?
Quem sabe… “Os Vultos” não foi um tema premeditado, não foi pensando, aliás como todos os outros temas apenas deixo a imaginação e os sentimentos fluírem, só após este primeiro processo é que há algum trabalho de produção e que requer mais algum pensamento mas no fundo é tudo muito natural. Na altura que acabei o tema ocorreu-me que, pela sequência melódica do mesmo, pelas guitarras e ambiências apresentadas, seria um excelente tema para ser cantado em português, a grande coincidência foi mesmo o Paulo Pacheco ter escrito para o álbum uma das letras em português. Em relação ao futuro, sinceramente acho que teremos de esperar para ver.


Em estúdio, és tu (Miguel Santos), que gravas os todos os instrumentos mas o álbum conta também com várias participações especiais. Os convidados tiveram algum papel criativo durante a gravação dos temas?
Nos temas em si não, mas nos solos sim. Eu gosto de dar liberdade artística aos músicos que escolho para trabalharem comigo, acho que só assim se consegue potenciar a pessoa como músico e se colocar restrições ou barreiras estarei pura e simplesmente a sufocar a arte. Assim sendo, o que fiz foi trabalhar em conjunto com esses mesmos músicos, onde eles apresentaram as suas ideias as quais trabalhamos posteriormente em conjunto de forma a termos um produto que seja do agrado de ambos.


Foi difícil encontrar os músicos certos para tocar ao vivo?
Não. Os músicos que me acompanham são todos amigos pessoais e também todos nós (à excepção do vocalista João Melo) fazemos parte dos In Peccatum, portanto foi apenas uma questão de lhes apresentar o projecto e averiguar com cada um deles a disponibilidade para alguns ensaios e concertos ao vivo.


O facto de serem dos Açores condiciona-vos um pouco as actuações ao vivo, contudo, já está programada uma tournée europeia em Novembro, quais são as vossas expectativas?
É sempre muito importante quando uma banda consegue actuar fora da sua terra ainda mais no caso de A Dream Of Poe que pouco publico alvo tem nos Açores. A digressão ainda não tem muitas datas confirmadas mas seja como for, mesmo que tenhamos o azar de não conseguirmos mais nenhum concerto para além do Dutch Doom Days, sou da opinião que pelo simples facto de participarmos neste que é o maior e mais importante festival de Doom Metal do mundo, já vale muito a pena todo o dinheiro por mim investido e é de facto o reconhecimento de todo o trabalho que tenho efectuado com A Dream Of Poe.


Muitas bandas queixam-se da falta de apoios em Portugal. É mais fácil para os A Dream Of Poe dar vários concertos na Europa do que em Portugal ou é uma opção vossa?
Em Portugal continental não sei, mas que me parece mais fácil tocar noutros países europeus do que aqui nos Açores lá isso não tenho a menor dúvida! Talvez fiques surpreendido ao saber que desde que iniciei A Dream Of Poe em 2005 não tive sequer um único convite para actuar aqui nos Açores enquanto que do estrangeiro convites não têm faltado o que falta na maioria dos casos é capacidade financeira para aceitar alguns dos convites. Felizmente com muito sacrifício pessoal consegui juntar algum dinheiro que me permite embarcar agora nesta pequena aventura. Todos os concertos que A Dream Of Poe deu foram organizados por mim, se assim não tivesse sido não tenho qualquer tipo de dúvidas em dizer que A Dream Of Poe estaria até hoje à espera de se estrear ao vivo.



Planos para um futuro próximo?
A curto prazo, tentar agendar mais concertos para a tournée e que a mesma me permita levar A Dream Of Poe mais além. Depois da tournée irei iniciar o trabalho de composição de novos temas com vista a um novo lançamento.


Por último, gostava de saber a tua opinião acerca do Doom Metal nacional.
Eu acho que o Doom Metal nacional nunca esteve melhor! Actualmente as nossas bandas de Doom Metal começam a ser rotuladas de “Portuguese Doom Metal” o que é, no meu ponto de vista, muito bom para o crescimento do nosso meio e para uma maior abertura dos mercados lá fora. Isto só é possível graças às enumeras bandas de qualidade presentes em Portugal como por exemplo os Mourning Lenore, Before The Rain, Desire, Process Of Guilt, entre outras.

sábado, 12 de março de 2011

A Dream Of Poe - The Mirror Of Deliverance

Os A Dream Of Poe são uma banda portuguesa de Doom Metal com algum Death e Gothic incorporado, formaram-se em 2005 e são de Ponta Delgada (Açores). Depois do lançamento de uma Demo em 2006, um álbum ao vivo em 2008, de dois EPs: “Sorrow For The Lost Lenore” e o excelente “Lady Of Shalott” (lançado no ano passado), já era de esperar um primeiro álbum de estúdio. “The Mirror Of Deliverance” é o nome do primeiro longa-duração, foi gravado entre Janeiro e Dezembro de 2010, toda a parte instrumental ficou a cargo de Miguel Santos, os vocais foram gravados por João Melo cujas letras ficaram a cargo de Paulo Pacheco. As músicas do álbum nunca foram editadas anteriormente, com excepção da “Lady Of Shalott”, o álbum é composto por 6 temas que perfazem 51 minutos. A edição desta obra ficou a cargo da sempre respeitosa Arx Productions, da Ucrânia, também dos portugueses Insaniae.

Os A Dream Of Poe praticam um Doom Metal bastante variado, que vai do Gothic Metal ao Progressive Rock, passando pelo moderno Post Rock e pelo Death Metal, com partes bastante atmosféricas e por vezes melancólicas. Como principais influências podemos destacar: Paradise Lost, My Dying Bride, Novembers Doom, Anathema… por aí. Toda a parte lírica da banda é inspirada na literatura de Edgar Allan Poe. Na minha opinião este álbum atingiu um nível bastante superior àquilo que eu estava à espera, muito superior aos trabalhos anteriores, é um trabalho bastante sólido e coeso. A nível vocal este trabalho é bastante variado e muito bom, temos voz limpa nalguns casos, registo gutural e até declamações de poemas com uma voz cheia de raiva. É um álbum com construções melódicas do mais alto nível, com uma qualidade extrema. As guitarras bem melódicas, por vezes acústicas, criam ambientes melancólicos incríveis.

O álbum começa com “Neophyte”, uma música bastante assombrosa, com uma atmosfera negra fenomenal, muito triste, marcada pela intensidade da dupla de guitarras, é um tema com uns guturais melódicos e com a voz limpa. “Os Vultos” é um tema bastante arrepiante, lento, épico, cantado na língua de Camões, com uma poesia trágica e triste, é um tema em que o instrumental nos remete para a coadjuvação da melancolia do Doom e do Fado (mais a nível instrumental), a lembrar uns Ava Inferi. “Lady Of Shalott” foi um tema que deu bastante que falar anteriormente, devido ao lançamento do EP, caracterizado pelo jogo de vocais, por vezes em dueto (voz limpa/gutural), com uma voz aguda espectacular que se ouve ao fundo. Tem uma atmosfera Doom/Gothic soberba, com grandes leads de guitarra e partes únicas em que a melodia da guitarra “limpa” dá um toque especial à música, destaque para a parte final, em que a letra é falada e assim termina a música de uma forma fenomenal. “Liber XLIX” começa muito calmamente com a voz limpa e com uma melodia de guitarra muito contemplativa, mas isso muda rapidamente, quando “aparece” uma voz extremamente agreste, agressiva e cheia de raiva e desespero, uns guturais extremamente agressivos, é uma música marcada pelas várias mudanças de ritmo, destaque para o grande solo de guitarra. “The Lost King Of The Lyre” é uma música fenomenal, com uma sonoridade (mais) parecida ao EP anterior, com um riff inicial de guitarra espectacular que põe tudo em sentido. Para terminar temos “Chrysopoeia”, outro ponto alto do álbum, com mudanças de ritmo bem evidentes, e com um registo vocal bem variado. Atenção particular para aquela parte a meio, onde somos confrontados por uma voz calma e triste ao som da chuva, o álbum termina com o som calmo do piano a contrastar com uma bateria forte e agressiva.

“The Mirror Of Deliverance” é um álbum de estreia muito bom, que cresce com o número de audições, todos os participantes mas sobretudo Miguel Santos estão de parabéns, os A Dream Of Poe são mais outra grande referência do Doom Metal português que ao que parece, já anda a dar muito que falar no estrangeiro.