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sexta-feira, 8 de março de 2013

Entrevista: Thugnor

JA, o que te levou a criar este projecto em 1996? Sentiste necessidade de fazer um som mais lento e arrastado?
Na altura estava a ouvir bastante Candlemass e isso inspirou-me a fazer algo completamente diferente de Decayed e assim surgiram as primeiras músicas de Thugnor. A intenção era fazer algo o mais pesado e mais lento possível sem ser algo “depressivo”.


Do primeiro Split com Decayed para o álbum há uma pequena diferença, a voz passa mais de Death para Black Metal, porquê?
No Split usei só a minha voz com pitch, no álbum usei mais a minha voz e menos o pitch. Não há nenhuma razão para tal acontecido, simplesmente me soou bem e assim ficou.


A produção de “Scrolls Of Grimace” está mais limpa e polida que o habitual, em que medida é que a gravação e produção foi diferente dos trabalhos anteriores?
Os meus conhecimentos em termos de gravação vão avançando por isso considero normal que o som se torne mais polido como referiste. Também tenho material melhor, o que ajuda a conseguir um som mais limpo sem perder o poder que é sempre algo que não convém perder.


Qual é o conceito por trás do álbum? 
Todas as letras de Thugnor se baseiam na religião Nórdica. É algo que me interessa pessoalmente e quando surgiu o conceito de Thugnor ficou interligado à tradição Nórdica. As letras são inspiradas em escritos antigos e em alguns ritos.


Qual é a banda que mais te influencia na composição em Thugnor?
Candlemass!


Como surgiu o interesse do Aphelion Productions para editar o álbum?
Já tinha trabalhado com o Ross em Decayed e ele estava interessado em lançar outro CD de Decayed. No entanto houveram uns contratempos e a coisa começou a atrasar-se. Como já tinha o álbum de Thugnor gravado, lembrei-me de lhe falar disso para ver se queria avançar com essa opção e depois lançaríamos o de Decayed. Ele pediu para ouvir o álbum, gostou e foi assim.


Já pensaste em tocar ao vivo com este projecto?
Este projecto é algo especial para mim e não me vejo a tocar estes temas ao vivo…


Já estás a compor material para um futuro lançamento?
De momento estou ocupado com outros projectos, mas assim que houver uma oportunidade, penso começar a trabalhar num novo álbum. Já tenho umas ideias, isso é sempre o início de algo. Não tenho datas, mas quando a inspiração vier, terá inicio mais um álbum de Thugnor.


Por último, queres deixar algumas palavras para os que acompanham os teus projectos?
Um muito obrigado para todos aqueles que apoiam o que faço!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Thugnor - Scrolls Of Grimace

Thugnor é a par de outros projectos de JA, como Hoth, Nethermancy ou Alastor, um dos mais interessantes em Portugal. Alastor como já foi aqui referido é aquele Black/Thrash agressivo das cavernas com riffs que não lembram ao diabo, Hoth uma espécie de Black Metal mais experimental com muitas teclas e Nethermancy é Black Metal demasiado brutal! Thugnor é Doom Metal obscuro e épico, com vocais podres e rasgados, ritmos lentos e decadentes com alguns bons solos… Mas é sobretudo a atmosfera negra e inóspita que destaca este outro projecto do fundador dos Decayed. Gravado no Hell-Mayhem Studio entre fins de 2008 e 2010, “Scrolls Of Grimace”, é uma obra-prima do Black/Doom nacional, são 11 temas que perfazem uma hora de escuridão, trevas e decadência.

À semelhança de Decayed ou Alastor, as introduções dos temais são imprescindíveis para entrar na atmosfera do álbum, límpidas, serenas, assustadoras, guitarras limpas, e começa logo com “Walkyr Across The Skies (Scrolls Of Grimace Part I)”. É no segundo tema, “Under The Oak (Scrolls Of Grimace Part II)”, que ficamos com a ideia daquilo que vai ser o álbum e é mesmo em “The Forgotten Ritual” que as coisas começam a ficar mais interessantes, batida e riffs lentos, bateria pontual e claro, um grande solo de guitarra. “Bow To The Altar” é outro grande tema marcado pela melodia inicial espectacular que vai marcar os minutos seguintes. “Within The Deep” é um tema absolutamente épico marcado especialmente por aquele canto feminino de fundo que dá um ar fantasmagórico à música, destaque também para o solo e para aquelas paragens para partes mais limpas e semi-acústicas. “Take The Seal” é dos temas mais mexidos, grande main riff, mas sempre lento e sujo, e os vocais não falham, sempre rasgados e assustadores, como que a declamar poesia.

“Blackest Sabbath” é na minha opinião a grande novidade do álbum, uma versão mais lenta e obscura do tema “Black Sabbath” dos Black Sabbath… A chuva a cair, a trovada, os sinos, as guitarras, os vocais à Black Metal que já estamos habituados, é mesmo único, e aquelas partes mais calmas com guitarra limpa com os tambores a acompanhar tornam este cover uma adaptação fenomenal, isto é sim é um grande cover, atmosfera negra e fria, vocais que declamam as letras com uma agressividade sem fim! “As The Candles Burn” é outro grande tema, início forte pesado, lento, sem dúvida uma das faixas mais atmosféricas e transcendentes do álbum. “Forests Of Haze (Scrolls Of Grimace Part III)” é o tema com o melhor solo de todo o álbum e para terminar nada como regressar a sons misteriosos, obscuros e assustadores: “To Thee We Prey (Scrolls Of Grimace Part IV)”.

Thugnor conta já na discografia com uma Demo de 1996 “Hymns To Deah”, um Split com os grandes Decayed, “At The Gates” (Drakkar Productions), e claro esse grande “Scrolls Of Grimace” (de 2011) que teve edição a cargo da Aphelion Productions (da Escócia). É pena projectos como estes não terem a projecção e divulgação como os Decayed, acho que muita gente iria gostar deste tipo de Black/Doom Metal. Saiu recentemente um Split com Decayed e Cunninlingus onde foi reeditada a primeira Demo de Thugnor, o título do Split é “Cast In Fire” e para quem perdeu a Demo no passado, nada melhor que adquirir isto agora, uma edição limitada da Hoth Records.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Hanged Ghost - Knowledge Of The Occult

Os Hanged Ghost são mais uma banda portuguesa de culto, de Doom/Death Metal oculto e sombrio... Como eles lhe chamam: Occult Death Funeral Doom From The Pit. Mas não são “só mais uma”! São, a par de projectos como Bosque, Lord Of The Abyss ou Defuntos, uma daquelas bandas reservadas e ocultas, de verdadeiro culto. Não é Funeral/Doom como Bosque, Drone/Doom como Lord Of The Abyss ou aquele Doom/Black mórbido e arrepiante dos Defuntos… É algo ainda mais profundo, depressivo, cruento, emocional, doentio e oculto. Contam já com o lançamento de duas Demos: “Remembrance” e “Remembrance Pt. II”, de 2010 e 2011, respectivamente. Outubro foi a data escolhida para a libertação deste álbum, gravado nas profundezas da noite em MMXI, com letras esculpidas miseravelmente em MMV. A edição ficou a cargo de duas editoras: Bubonic e Universal Tongue, foram feitas 300 cópias, numeradas à mão.

“Knowledge Of The Occult” é um álbum de Doom/Death (quase Drone) com uma produção crua e suja, sem grandes arranjos bonitinhos, 48 minutos de trevas e escuridão, guturais graves e por vezes mais arranhados aproximando-se de um Depressive Black Metal. Riffs de guitarra simples, rígidos e directos. No total são 3 grandes temas, muito lentos, (mais um sem título no fim), o primeiro, “Calvarium”, é talvez o mais rápido (se é que se pode chamar rápido a isto) de todo o álbum, bastante denso até… “The Wood & The Stone” é outro grande tema com destaque especial para a subtileza das spoken words e para aquela atmosfera vivida aos 8 minutos e tal, onde somos “sugados” para um buraco negro gelado. E é na longa “Abhorrence As A Necessary Vision Of A Cruel Analysis Of Those Who Live Hidden In The Radiance Of Treachery” que ficamos com uma hipnose total, com o seu minimalismo frio e cru. É um álbum bastante monótono, repetitivo e depressivo, peca um pouco pela fraca produção e não sei até que ponto uma produção mais profissional não seria melhor… Faltam aqui aqueles momentos mais intensos e inóspitos como o que referi em “The Wood & The Stone”, era algo a explorar mais numa próxima libertação. Não esquecer ainda de mencionar a última faixa instrumental, que termina de forma bastante subtil este réquiem de dor e depressão, altamente aconselhável para as noites frias e longas de inverno.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Entrevista: A Dream Of Poe

Os A Dream Of Poe formaram-se em 2005, conta-nos um pouco do que te levou a iniciar o projecto nessa altura.
Eu sempre tive o desejo de iniciar um projecto onde me pudesse exprimir musicalmente sem estar sujeito aos gostos de cada músico. Em contexto de banda tens de ter em atenção o gosto pessoal de cada músico, tens de encontrar um meio-termo de forma a agradar a todos, o que por vezes resulta num produto final que poderá não ser aquilo que imaginavas, para o melhor ou para o pior. Assim em 2004/2005 foi quando comecei a pensar mais seriamente sobre iniciar um projecto a solo e a primeira experiencia surgiu em 2006 com o lançamento da Demo “Delirium Tremens”. Desde esta altura tenho apostado em A Dream Of Poe lançando diversos trabalhos ao longo destes anos. Contudo gostaria de salientar que isto não quer dizer que não goste de trabalhar como “banda”, muito pelo contrário, acho que quando todos trabalham para o mesmo objectivo trabalhar em banda consegue ser muito mais motivador que trabalhar a solo.


No ano passado editaram o EP “Lady Of Shalott” e foi com esse EP que surgiu o contacto com a ARX Productions, era esse o objectivo do EP? Encontrar uma editora?
Não era o único mas era, de facto, um deles. O objectivo principal era tentar criar algum interesse à volta da banda e do álbum que se seguiria. Felizmente pouco tempo depois do lançamento do EP fui contactado pela ARX Productions mostrando interesse em editar o “The Mirror Of Deliverance”.



Estão satisfeitos com o trabalho da editora? Como é que está a ser a distribuição do novo álbum?
Primeiro que tudo tenho de salientar que a ARX não é uma Nuclear Blast nem nada que se pareça, assim sendo, e dado o estatuto mais underground da mesma, estamos muito satisfeitos pois a editora tem cumprido com o que se comprometeu. A distribuição está a cargo exclusivamente da ARX que tem conseguido colocar o nosso CD à venda nos quatro cantos do mundo. De inicio ainda tentei acompanhar este processo, mantendo-me atento e informado sobre quais as editoras e distribuidoras estão a distribuir o álbum, mas tendo a responsabilidade de gerir outras coisas em torno da banda acabei por me desligar um pouco da distribuição.


Como decorreu o processo de gravação e produção do mesmo?
Uma vez que foi gravado no meu estúdio em casa, posso dizer que foi um processo muito natural e tranquilo. Graças a esse facto consegui desenvolver este trabalho sem qualquer tipo de pressões e ao meu ritmo.


A parte lírica dos temas tem como principal inspiração a literatura de Edgar Alan Poe. Qual é o conceito envolvente?
Nesta questão o ideal é dar a palavra ao Paulo Pacheco, letrista de A Dream Of Poe: No “The Mirror Of Deliverance”, houve um afastamento temático em relação às obras de Poe de modo a explorar outras vertentes. Basicamente, no álbum é feito um estudo sobre a regeneração do espírito humano como um processo alquímico, contado através de dois personagens que simbolizam os opostos e a sua consequente união. É, portanto, um pequeno tratado místico sobre a condição humana e o processo que se desenrola ao dar-se a Iniciação nos Mistérios, na busca da Verdade através da elevação espiritual que é a própria criação da Pedra Filosofal. Como influências para a escrita das letras refiro Manly P. Hall, Jack Parsons e Aleister Crowley para além de tradições como o Rosacrucionismo e Maçonaria.


“Os Vultos” é o vosso primeiro tema cantado em português e é bastante emocional e comovedor, num próximo trabalho iremos ouvir mais temas em português?
Quem sabe… “Os Vultos” não foi um tema premeditado, não foi pensando, aliás como todos os outros temas apenas deixo a imaginação e os sentimentos fluírem, só após este primeiro processo é que há algum trabalho de produção e que requer mais algum pensamento mas no fundo é tudo muito natural. Na altura que acabei o tema ocorreu-me que, pela sequência melódica do mesmo, pelas guitarras e ambiências apresentadas, seria um excelente tema para ser cantado em português, a grande coincidência foi mesmo o Paulo Pacheco ter escrito para o álbum uma das letras em português. Em relação ao futuro, sinceramente acho que teremos de esperar para ver.


Em estúdio, és tu (Miguel Santos), que gravas os todos os instrumentos mas o álbum conta também com várias participações especiais. Os convidados tiveram algum papel criativo durante a gravação dos temas?
Nos temas em si não, mas nos solos sim. Eu gosto de dar liberdade artística aos músicos que escolho para trabalharem comigo, acho que só assim se consegue potenciar a pessoa como músico e se colocar restrições ou barreiras estarei pura e simplesmente a sufocar a arte. Assim sendo, o que fiz foi trabalhar em conjunto com esses mesmos músicos, onde eles apresentaram as suas ideias as quais trabalhamos posteriormente em conjunto de forma a termos um produto que seja do agrado de ambos.


Foi difícil encontrar os músicos certos para tocar ao vivo?
Não. Os músicos que me acompanham são todos amigos pessoais e também todos nós (à excepção do vocalista João Melo) fazemos parte dos In Peccatum, portanto foi apenas uma questão de lhes apresentar o projecto e averiguar com cada um deles a disponibilidade para alguns ensaios e concertos ao vivo.


O facto de serem dos Açores condiciona-vos um pouco as actuações ao vivo, contudo, já está programada uma tournée europeia em Novembro, quais são as vossas expectativas?
É sempre muito importante quando uma banda consegue actuar fora da sua terra ainda mais no caso de A Dream Of Poe que pouco publico alvo tem nos Açores. A digressão ainda não tem muitas datas confirmadas mas seja como for, mesmo que tenhamos o azar de não conseguirmos mais nenhum concerto para além do Dutch Doom Days, sou da opinião que pelo simples facto de participarmos neste que é o maior e mais importante festival de Doom Metal do mundo, já vale muito a pena todo o dinheiro por mim investido e é de facto o reconhecimento de todo o trabalho que tenho efectuado com A Dream Of Poe.


Muitas bandas queixam-se da falta de apoios em Portugal. É mais fácil para os A Dream Of Poe dar vários concertos na Europa do que em Portugal ou é uma opção vossa?
Em Portugal continental não sei, mas que me parece mais fácil tocar noutros países europeus do que aqui nos Açores lá isso não tenho a menor dúvida! Talvez fiques surpreendido ao saber que desde que iniciei A Dream Of Poe em 2005 não tive sequer um único convite para actuar aqui nos Açores enquanto que do estrangeiro convites não têm faltado o que falta na maioria dos casos é capacidade financeira para aceitar alguns dos convites. Felizmente com muito sacrifício pessoal consegui juntar algum dinheiro que me permite embarcar agora nesta pequena aventura. Todos os concertos que A Dream Of Poe deu foram organizados por mim, se assim não tivesse sido não tenho qualquer tipo de dúvidas em dizer que A Dream Of Poe estaria até hoje à espera de se estrear ao vivo.



Planos para um futuro próximo?
A curto prazo, tentar agendar mais concertos para a tournée e que a mesma me permita levar A Dream Of Poe mais além. Depois da tournée irei iniciar o trabalho de composição de novos temas com vista a um novo lançamento.


Por último, gostava de saber a tua opinião acerca do Doom Metal nacional.
Eu acho que o Doom Metal nacional nunca esteve melhor! Actualmente as nossas bandas de Doom Metal começam a ser rotuladas de “Portuguese Doom Metal” o que é, no meu ponto de vista, muito bom para o crescimento do nosso meio e para uma maior abertura dos mercados lá fora. Isto só é possível graças às enumeras bandas de qualidade presentes em Portugal como por exemplo os Mourning Lenore, Before The Rain, Desire, Process Of Guilt, entre outras.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Defuntos - Luto Perpétuo

Nos últimos anos Portugal tem assistido à ascensão dum duo misterioso e único, bem conhecido pelas suas marchas fúnebres e visões de morte. Num ano (2010) marcado pelo lançamento de “Invocação Aos Mortos” em Abril, os Defuntos lançam ainda em Novembro (dia 2, dia dos Mortos) o seu quinto longa-duração intitulado “Luto Perpétuo”, num luxuoso Digipack CD com 16 páginas que nos leva ao coração do século XIX, numa viagem intensa e mórbida daquilo que seria a vida enfrentando a morte. A edição deste registo sinistro e melancólico ficou a cargo da Dunkelheit Produktionen, limitado a 500 cópias.

Os Defuntos, praticam um Black/Doom Metal bastante depressivo, triste e doentio, lento como uma procissão fúnebre e oculto e assustador como alguém dentro de um caixão. Defuntos é tão desolador e triste que se torna muitas vezes difícil de ouvir, é como se fosse um funeral constante, é perturbador, mórbido e sombrio.  A qualidade não é a melhor, e tenho a certeza que nem é essa a intenção da banda. Aquilo que sentimos aqui, é a morte, é estar num cemitério, é a exuberância dum jazigo ou de um caixão… É a podridão humana. Todos os temas são cantados em português, e, se há uma coisa que se destaca, é sem dúvida a poesia romântica extremamente sombria, bastante bem elaborada. A voz doente (e por vezes chorada) de Conde F. é lenta e arrastada, como alguém a contar uma história. O instrumental é marcado por um baixo lento e simples, nalgumas partes acompanhado por um piano básico e por uma bateria lenta e suave. Destaque para a introdução “Mórbido Padecimento”, a quarta parte d’A Visão Da Tragédia e para o tema “…A Tua Voz…”, que fala duma maldição chamada vida. Músicas lentas e ritualistas como “Algarve Esquecido” e “Dentro De Um Corpo Que Era Teu…” amaldiçoam-nos com um clima sufocante e mórbido inexplicável, onde sentimos uma arrepio de morte e uma agonia que nos atormenta do início ao fim.

Defuntos é a banda sonora/réquiem ideal para qualquer funeral, Black/Doom deprimente e mórbido. Acrescento já que ouvir Defuntos não é para qualquer um, nem para ouvir em qualquer lugar ou estado espírito, é como um recuar no tempo, como uma viagem ao século XIX, a funerais e à “convivência” com pessoas mortas (repare-se em todo o artwork dos Defuntos, desde o lançamento da primeira Demo, com fotos de pessoas mortas, acto muito comum do século XIX). Confesso que ao início (aquando do lançamento de “Nada É Eterno”) não apreciava muito este duo. Neste momento posso afirmar que estes senhores são um dos segredos mais bem guardados do Black Metal nacional, muito mais apreciado lá fora que cá (como vai sendo normal). São uma banda que não desilude, e, a cada lançamento (que têm sido muitos ultimamente) nota-se uma evolução. Em relação aos meus registos preferidos destaco “Sangue Morto” e “A Negra Vastidão Das Nossas Almas”.  Com uma bagagem de estúdio muito forte, esperemos por um (o segundo penso eu) concerto ao vivo! “Da Penumbra surge o Infortúnio da vida, e nela irei permanecer / Neste buraco, negro de sentimentos, afundo-me… / Para nunca mais sair”.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Entrevista: Why Angels Fall

Os Why Angels Fall iniciaram as actividades em 1997, o que os levou a formar a banda na altura?
Quando comecei a tocar com o Miguel em 1997, estávamos juntos numa banda de Gothic Rock que eram os Te Devm. Nesse sentido, isso poderia ser encarado como um primeiro estágio daquilo que hoje são os Why Angels Fall. O que nos levou a formar uma banda foi algo normal, aprendes um instrumento, baldas-te a algumas aulas para ouvir discos e depois encontras pessoas que partilham ideias, vontade de fazer música, vontade de tocar as músicas que gostas, de fazer berrar um amplificador…


Porquê o nome “Why Angels Fall”?
O nome pretende evocar uma sensação de perda e de saudade. Um estado de Graça perdido, cujo anseio conduz a um caminho de transcendência – afinal dentro do homem está o abismo, mas também o Éter. Rever os actos da queda leva-nos a reerguer, esses actos são “Why Angels Fall”…


Como foram os primeiros anos da banda sem editar/lançar algo? O vosso primeiro lançamento foi em 2003, como decorreu o processo de gravação e produção do “…To The Sun”?
Quando, por vários motivos, os Te Devm pararam (tendo ainda mudado o nome para Children Of Lir e reciclado um pouco a própria conceptualidade da banda), dei por mim a querer experimentar outro tipo de sonoridade. Então fui experimentando alguns takes em casa e no final de 2002 decidi mostrar isso a algumas pessoas a resposta foi positiva e decidimo-nos gravar uma maquete. Começámos eu e o Miguel, e outro músico, o João, que também fez parte dos Te Devm – no entanto o João sairia depois das sessões de bateria que gravámos em Braga, com o Daniel. Essa primeira fase foi completada num fim-de-semana. Depois aos poucos fomos gravando com o Basílio e no Verão de 2003 o trabalho estava completo – as gravações acabaram por ir ditando o line-up, pois foi quando o Roberto entrou também para a banda e o Basílio que nesse trabalho gravou apenas o “duelo” de guitarras comigo no final de um dos temas acabaria por entrar também para a banda. Acontece que o Daniel gravou as baterias como um amigo, um músico de sessão e não tinhamos baterista, daí tirando um ou outro concerto só em 2005 termos surgido ao vivo, já com o line-up actual. No fundo, o “…To The Sun” acabou por ser um trabalho com várias correntes sonoras, a explorar os caminhos que poderíamos seguir.


Em termos líricos qual é a principal abordagem do EP?
“Dikranon” fala precisamente da encruzilhada ontológica do ser humano, da postura deste diante do Ser Supremo, é uma letra de lamento teológico. “Beneath The Dream… The Post Dream” e “The Fallen Minstrel” falam de perda, de alguém, de emoções.


A Demo “Dikranon”, de 2006, teve alguma razão em especial para ser editada?
Essa Demo surgiu por duas razões: no decorrer dos ensaios para algumas datas em 2005, demos por nós a experimentar a “Dikranon” em português e ficou a sensação que dessa forma o tema adquiria outra ressonância, então voltámos a pegar nas sessões do EP e regravámos a voz, eu e o basílio acabámos por acrescentar alguns solos de guitarra para dar um feeling ainda mais Pink Floyd ao tema; depois a tributo o tema gravado para o tributo a Skepticism estava na gaveta desde 2004, o projecto esteve muito tempo parado. Acabámos por decidir que eram duas boas demonstrações para enviar em pacotes promocionais da banda e mostrar sinais de vida para o exterior, e uma vez que o investimento já estava realizado, assim o fizemos.


Em 2007 participaram num tributo a Skepticism. Como surgiu esse convite?
Quando começámos a mostrar o EP no final de 2003, a editora que lançou esse tributo teve connosco um pré-acordo de edição do “…To The Sun” e ao mesmo tempo endereçou-nos o convite para participar no tributo. Depois, por divergências que surgiram, acabámos por lançar o EP em edição de autor, contudo, o convite para o tributo manteve-se e poder trabalhar nisso, mais que uma forma de exposição foi o desejo de correr riscos ao trabalhar algo tão susceptível como um tema de uma das mais influentes bandas dentro do género. Mudámos bastante o original para o acolhermos na nossa sonoridade, de forma que queria um contacto directo com a versão dos Skepticism, então convidámos o Nuno para fazer as vozes e evocar o registo colossal do Mati.


O contacto com a Bubonic Productions já vinha de alguns anos atrás ou surgiu quando vocês se preparavam para editar o álbum?
O contacto com a Bubonic vinha um pouco de trás, através duma relação de amizade e respeito face a gostos comuns. Quando começámos a intuir uma data para terminar o álbum surgiu o interesse em editá-lo, sem qualquer interferência nas linhas conceptuais e de produção. E a própria Bubonic possui uma atmosfera que nos parecia ajustada ao álbum.


O álbum tem duas músicas bastante longas, não era mais fácil “dividi-las”? A audição dos temas não se tornaria mais acessível?
A nós fazia sentido que fosse assim, foram construídos e pensados dessa forma desde o início. Também para os trabalhar em estúdio teria sido mais fácil quebrá-los, mas o desafio também passava por acondicionar um sentido dinâmico musical em peças tão longas, acaba por sentir-se uma “divisão” em cada um dos movimentos que não deixa de ser fácil intuir. De outra forma talvez a audição se tornasse acessível, mas a apreensão do conceito poderia tornar-se mais difícil.


Passaram 7 anos desde o último lançamento, o “The Unveiling” é gigante e tem pormenores que se ouvem ou se descobrem ao fim de várias audições. Necessitaram desse tempo todo para o nascimento desta obra? Como decorreu o processo de gravação e produção do álbum? Deve ter sido difícil e complexo…
O principal motivo de todo este tempo, além das interrupções descritas acima, foi o desenvolvimento lírico do trabalho. Musicalmente foi necessário manter coerência em duas peças com a cronometragem que o álbum apresenta e tudo isso levou a alguns ajustes, coisas que saíram, outras que entraram mesmo no final. Depois são os próprios álbuns a decidirem o seu timming, a música tem um poder próprio, misterioso… quando decidimos que estávamos a ser impelidos pelos temas e entrámos em estúdio, as coisas aconteceram com alguma rapidez: entre Outubro e Dezembro completámos as gravações. Depois houve pormenores de arranjos instrumentais e vocais que decidimos acrescentar ao ouvir as primeiras misturas, para fornecer mais detalhes atmosféricos e culturais, de forma a situar mais geograficamente a parte musical com o percurso lírico. Em Janeiro esse processo, tal como as misturas, ficou completo. Houve ainda um trabalho de alguma correcção de metrónomo, de forma a corrigirmos qualquer latência derivada do processamento de ficheiros tão pesados. E a masterização foi um processo bastante simples.


“The Unveiling” é um álbum conceptual, falem-nos, de uma forma geral, do conceito envolvente.
O “The Unveiling” fala do ser humano enquanto uma forma de Estar, precária, a caminhar para a plenitude do Ser, do Verbo Primordial. Tudo se diz e constrói a partir do verbo “Eu Sou” e esse foi o nome que os autores bíblicos desvendaram para Deus. Procurando o fundo do seu ser, no seu íntimo, o ser humano descobre-se como imagem do Verbo, do Logos, de Deus e revela-se a si mesmo nesse encontro que é forma de transcendência. O destino do homem é ser maior, descobrir-se divino. Um ser humano que não saiba declamar esse Verbo Primordial é uma sombra, apenas se situa no Estar e não se concretiza, não se torna, não se faz Ser.


Na parte final do álbum aparecem referidos alguns livros bíblicos. A parte lírica demorou bastante tempo, foi só o Nero que ficou a cargo das letras?
Sim, com um trabalho também de sugestão e revisão por parte de alguns colegas de curso. E uma enorme inspiração na riqueza dos textos bíblicos.


A faixa “The Unveiling” tem um carácter bastante oriental, na percussão, no uso da cítara, e até na voz. Como surgiu a ideia de apostar nesse tipo de sonoridade? Era algo já pensado há muito tempo?
Queríamos algo que evocasse o Centro do Mundo, com detalhes que permitissem pontos de contacto com qualquer geografia musical, no fundo procurar dotar essa parte duma ancestralidade e misticismo duma hipotética Fonte Sonora Comum de onde os vários sons do mundo emergiram. Esse momento é na história o primeiro contacto entre a consciência humana com o Mistério originário que a rodeia e tentámos recriar um Éden sonoro. Foi algo, que ficou muito mais enriquecido com o tempo de experimentação que tivemos em estúdio, mas que era um objectivo desde o momento que o conceito do álbum se definiu.


A “Neo Genesis” é a faixa mais “cristã” do álbum, com um som de piano (muito elaborado) quase a solo durante 10 minutos, acompanhado por uma leitura bíblica, e tem um fim, digamos, “épico”. Como foi processo de criação e captação do piano?
Gravar os pianos é sempre a parte mais fácil nas nossas sessões de estúdio. O Miguel é uma “máquina” a gravar, mesmo takes tão grandes como os que fizemos neste trabalho, geralmente, consegue-os “à primeira”. No caso particular desse solo havia uma edição que vinha das sessões de pré-produção com algumas estéticas e o ambiente estruturado, mas o take que ficou no registo foi gravado de improviso. Necessitámos apenas de algum trabalho de overdub para acrescentar algo mais a momentos que tinham ficado com o feeling certo, mas com uma ou outra imperfeição demasiado evidente.


Qual foi a faixa que demorou mais tempo a compor?
A “Neo Genesis” foi descoberta primeiro, mas demorou mais a ficar definida. É um tema com uma estrutura mais sólida e mais assente em repetição e portanto demorou um pouco a dar-lhe a dinâmica necessária para criar o lento crescendo que desenvolve até um final muito emotivo. Depois também em estúdio foi o primeiro a começar a ser gravado e o último a ser terminado.


Têm recebido críticas bastante positivas vindas de um pouco de toda a Europa, como foram as vendas do álbum?
A edição especial foi uma aposta ganha. A edição normal não tem tido tanta procura, há muitos contactos do estrangeiro, mas acima de tudo de quem tem obtido o álbum por meios “apócrifos”, digamos assim.


As aparições ao vivo são esporádicas e têm sido alvo de apreciações bastante positivas. O facto de darem poucos concertos torna o culto à volta dos Why Angels Fall mais pessoal?
São esporádicas por motivos pessoais/profissionais e porque acabamos por não ter também um circuito em que as bandas se possam mostrar com boas condições para o seu som, com dignidade. De resto, não creio que haja um culto em torno das actuações da banda. Não creio que exista sequer esse tipo de devoção a uma banda nacional no nosso underground, o que vejo mais semelhante a isso acontecerá com os Process Of Guilt e com os Grog, duas bandas com uma enorme qualidade no seu trabalho e irrepreensíveis ao vivo.


Recentemente tocaram no Dublin Doom Day, na Irlanda, como foi a recepção do público? Gostaram?
A resposta à nossa presença lá foi gratificante, por dois motivos: fomos muito bem acolhidos, só não nos deram o que não tinham; depois o público que se dirige a ti não o faz por educação ou elegância, são estranhos que se sentem impelidos a virem elogiar-te ou dizer-te onde poderias ter feito melhor somente devido ao que o concerto suscita. Foi uma das melhores experiências que, enquanto Why Angels Fall, já tivemos.


Em Novembro reeditaram o “…To The Sun”. Com o “sucesso” do álbum achas que os fãs tiveram curiosidade em ouvir e pesquisar o material mais antigo da banda?
Era uma ideia que havia há algum tempo, havia quem nos contactasse com o intuito de obter esse trabalho que, por ter sido edição de autor, teve um pressing muito pequeno. Assim pensámos em incentivar o público a vir ao último concerto de promoção ao “The Unveiling” com esse bónus… pelo resultado diria que não houve essa curiosidade.


O DVD ao vivo incluído na reedição está bastante bom. Têm mais alguns concertos gravados e que possam ser editados num futuro próximo?
Temos mais footage ao vivo que está a ser tratada e ainda a intenção de desenvolver algo com vídeo para acompanhar o próximo trabalho. Há muitas coisas em aberto nesta altura.


O nome do próximo álbum vai ser “The Four Living Creatures”, já estão em fase de pré-produção, certo? Qual vai ser o conceito principal?
O conceito está centrado nos quatro evangelhos canónicos, no fundo como a fé cristã olha para Jesus Cristo, as nuances de intensidade e de visão de cada um deles. Se o “The Unveiling” é um álbum sobre do despertar do Logos, este será sobre a proclamação do Logos.


O que podemos esperar desse álbum?
Há ainda muito por definir em relação ao formato final, contudo parece-me que musicalmente o “The Unveiling” foi um vértice do qual podemos desenvolver a nossa sonoridade por algum tempo, assim não estará atmosfericamente muito distante deste trabalho onde iremos procurar desafios e riscos maiores ao mesmo tempo que procuramos maturar o nosso som. De resto, é sempre bom manter o mistério, até para nós próprios.


Para terminar, querem deixar algumas mensagens aos fãs?
Podem contactar-nos sempre e procurar aprender connosco ou ensinar-nos. Que tomem o nosso trabalho, não como qualquer tipo de pretensiosismo ou propaganda estereotipada, mas como um ponto de partida para o desejo de querer saber mais, de quer ser mais. É esse o caminho do ser humano, com a certeza de que no final de cada procura jaz a Revelação. Aproveito também para anunciar que a curta-metragem “Heaven Or Hell” do realizador Filipe Henriques, tem música nossa como parte da banda-sonora e é um “must see” para fãs do cinema indie.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entrevista: Insaniae

Os Insaniae formaram-se em 2003 mas alguns membros vieram de um projecto anterior (que acabou), conta-nos um pouco dessa mudança.
O projecto anterior chamava-se Dogma e existia desde 1996. Em 2003, Dogma esgotou o seu curso natural em termos musicais e decidimos avançar para outro projecto diferente. Eu, o Luís, a Isabel e o Raul estávamos todos em Dogma há vários anos, sendo que em Insaniae eu assumi a segunda guitarra.


Nota-se uma evolução de “Outros Temem Os Que Esperam Pelo Medo Da Eternidade” para o mais recente “Imperfeições Da Mão Humana”. Quais foram as diferenças entre o processo de composição, gravação e produção de cada um?
O processo de composição foi idêntico - tudo parte duma ideia ou projecto de uma música que depois é trabalhada nos ensaios por todos. A gravação e produção foram novamente feitas com o Fernando Matias nos Urban Insect Studios (agora Pentagon). O “Imperfeições Da Mão Humana” demorou mais tempo a ser concebido e como resultado tem mais pormenores e pequenas nuances do que o anterior e a esses factores podemos também aliar a experiência que ganhámos enquanto banda no período entre estes dois álbuns. O material de que o Fernando dispôs era naturalmente melhor e isso foi obviamente uma mais-valia que influenciou o resultado final.


A ARX Productions é uma editora um pouco conservadora em relação às bandas que “escolhe”, como surgiu esse contacto?
Não sei se se pode considerar conservadora. É uma editora pequena da Ucrânia que está a dar os primeiros passos. O contacto surgiu deles e, como estávamos à procura de editora, decidimos aceitar o convite para lançar o álbum.


O contrato vai durar quanto tempo?
Para já, apenas temos programado a reedição do primeiro álbum com a adição de uma faixa bónus. Em relação ao futuro, ainda estamos a negociar com eles. Pode ser que o próximo álbum saia através da ARX ou pode ser que não! Todas as possibilidades estão em aberto.


O álbum esgotou recentemente. Houve mais público estrangeiro a obter um exemplar ou português?
Houve mais vendas no estrangeiro do que em Portugal e vemos isso sem qualquer surpresa. O mercado português de Metal e especialmente o mercado das bandas de Doom é bastante mais reduzido do que no exterior.


Têm recebido críticas vindas de um pouco de todo o mundo, achas que o facto da editora ser da Ucrânia vos favoreceu?
Acho que a ARX fez um bom trabalho, dentro das suas possibilidades. Também eles estão a começar e acho que estão no bom caminho. O facto de serem da Ucrânia foi útil para as vendas na Rússia e no leste da Europa. Fizeram também alguns acordos para distribuição no resto da Europa, incluindo em Portugal.


Os velhos tempos de Theatre Of Tragedy são os que as críticas se incidem mais como sendo a vossa principal influência. Na verdade, quais são as vossas influências?
Já não ouço ou leio nenhuma crítica a mencionar os Theatre Of Tragedy há muitos anos. Aliás o álbum “Velvet Darkness They Fear” foi editado há mais de 15 anos pelo que muita gente já não se lembra dele! A semelhança, julgo eu, baseia-se apenas na dualidade da voz feminina/voz masculina. Em termos musicais, a comparação não me parece muito acertada. As influências são, basicamente, tudo o que ouvimos e variam de pessoa para pessoa. Não gostamos particularmente de estar a enumerá-las, preferimos que ouçam e decidam por vós próprios. Dito isto, obviamente que Mourning Beloveth, My Dying Bride ou Candlemass podem ser consideradas referências. Assim como são muitas outras bandas que aparentemente podem não ter uma relação imediata com o que fazemos mas que no entanto a sua influência está lá.


Achas que o facto de cantarem em português vos desfavorece em relação a outras bandas portuguesas de Doom Metal?
Acho que faz parte do que nós somos, pelo que não vemos as coisas dessa forma. Não ponderamos se cantar em português, ou qualquer outro aspecto da nossa música, nos favorece ou não - fazemos o que queremos ouvir e o que gostamos. Estou certo de que para algumas pessoas é uma vantagem e para outras não o é. Nós nem pensamos nisso.


Porquê o título “Imperfeições Da Mão Humana”?
A “Mão Humana” é essencialmente uma referência à criação, seja ela artística ou não. É uma constatação da “Imperfeição” inerentemente humana da criação. Há, de resto, bastantes mais referências a este conceito nas letras do álbum.


Nota-se que os Insaniae dão poucos concertos. É uma opção vossa ou deve-se a outros factores?
Damos poucos concertos em relação a algumas bandas de outros estilos de Metal! A verdade é que condições ideais para tocarmos não aparecem todos os dias e vamos tocando naqueles concertos que possam ser interessantes para o que estamos a fazer. Recentemente tocámos com Ava Inferi, Process Of Guilt, Mourning Lenore, Löbo, Hyubris, Enchantya, etc. Tendo em conta o panorama nacional acaba por não ser tão pouco como isso, se bem que desejaríamos tocar muito mais como é óbvio.


Recentemente tocaram duas músicas em inglês, como vai ser no próximo álbum? Só português, só inglês ou uma mistura?
Provavelmente uma mistura. Ainda não está nada definido, até porque ainda não está 100% acabado. Vamos ver em que caminho é que nos levam os temas.


Como Insaniae já têm 8 anos de carreira, que balanço é que fazes até aos dias de hoje?
Obviamente que o balanço é muito positivo. Temos vindo a trabalhar bastante e temos seguido o nosso caminho. Partilhámos o palco com grandes nomes da cena Doom nacional e esforçámo-nos por levar esta sonoridade sempre mais longe. Estamos com vontade de olhar para a frente e seguir outros caminhos menos percorridos.


Planos para o futuro?
Vamos agora gravar um tema inédito, para a reedição do primeiro álbum, a sair através da ARX até ao final do ano. De resto é acabar de compor o próximo álbum e começar a pensar em dar mais alguns concertos em sítios onde nunca tocámos.


Lá fora já se fala de uma cena de Doom Metal português, qual é a tua opinião? Achas que este “movimento” merece ir mais “longe”?
Acho que merece e vai chegar mais longe, tanto lá fora como cá dentro. Acho que temos excelentes bandas de Doom Português que não ficam a dever nada ao que se faz lá fora. A principal diferença é “apenas” a geografia. Acompanho e tenho orgulho destas bandas.


quarta-feira, 30 de março de 2011

Ava Inferi - Onyx

Os Ava Inferi são uma banda portuguesa/norueguesa de Gothic/Doom Metal, são a seguir aos Moonspell (penso eu), a banda portuguesa mais internacional no que toca ao Metal. Formaram-se em 2005 por Rune Eriksen (aka Blasphemer, ex-Mayhem) e Carmen Simões na cidade de Almada. Contam com uma carreira bastante sólida desde o seu início, contam já com 4 álbuns de estúdio e várias digressões europeias, alguma delas em nome próprio, assim como participações nos mais conceituados festivais europeus de Metal. Todas as edições da banda ficam a cargo da editora francesa/norte-americana Season Of Mist.

Confesso que nunca fui grande fã da banda, não aprecio muito o primeiro álbum “Burdens”, tenho o “The Silhouette” que já acho bastante superior com aqueles clássicos “A Dança Das Ondas”, “Viola” e “Oathbound”, que era até à data o melhor lançamento da banda. Gosto muito do “Blood Of Bacchus”, embora o ache um pouco enjoativo e cansativo, mas tem as suas grandes músicas de destaque: “Last Sign Of Summer”, “Black Wings” e “Be Damned”. Chegamos a 2011 e os Ava Inferi lançam um novo álbum: bastante sólido e coeso e que se intitula de “Onyx”. Deparamo-nos com uns Ava Inferi com mais maturidade e com músicas mais sólidas, marcadas por ambientes espectaculares e com muita qualidade, complexidade e musicalidade, extremamente marcado por atmosferas góticas e tristes inexplicáveis, com a voz única de Carmen Simões a juntar às grandes composições de Rune Eriksen. Saiu, à semelhança dos outros, em Digipack CD.

“Onyx” é um álbum bastante cativante e etéreo, um Gothic/Doom Metal quente e escuro que nos faz sonhar, com um instrumental único (muito superior ao dos álbuns anteriores), caracterizado por melodias fantásticas por parte da guitarra de Rune Eriksen, pelo uso de samplers e pela voz única de Carmen. É um álbum muito viciante, cada música é única e diferente da outra, com excepção da “((Ghostlights))” e  da “The Heathen Island” que achei um pouco enjoativas e inferiores ao resto das faixas do álbum. A primeira faixa “Onyx” é encantadora, óptima para o início, com uma combinação de riffs e uma voz a cantar ópera lentamente, até que chegamos à voz normal e mais tarde há um solo fascinante de guitarra. Destaque para os samplers assustadores que são em uma mais-valia para o ambiente escuro deste tema. “The Living End” foi a faixa que me chamou mais à atenção inicialmente, é uma música linda com um refrão espectacular e que tem a particularidade de ter o Rune na voz em dueto com Carmen, uma música muito especial a rasar o Gothic Rock. “A Portal” é outro grande tema, mais pesado que o anterior, com mais uma melodia de guitarra deslumbrante, com um piano e com vários samplers, destaque para o verso na parte final “Within this dark I’ll set you free”.

“Majesty” foi o primeiro Single escolhido e na minha opinião foi uma excelente opção, é um dos melhores temas que os Ava Inferi fizeram até hoje, com um ambiente misterioso e uma atmosfera bem pesada, mais uma vez, com a voz especular de Carmen com a melodia de guitarra a acompanha-la de forma bem sublime. “By Candlelight & Mirrors” é a minha faixa preferida, é linda e é bem difícil de caracteriza-la, é melancólica mas não tão sombria como as anteriores, assinalada por um refrão único, diria até de génios! Nada melhor para terminar que a “Venice In Fog”, uma faixa lenta, triste e nostálgica, com um som de guitarra encantador. À semelhança da “A Dança Das Ondas”, tem como fundo o som da beira-mar, neste caso na parte final. Peca apenas pelas músicas menos conseguidas (já referidas) e por ser o primeiro álbum sem uma música cantada em português.

Os Ava Inferi são na minha opinião uma das melhores bandas portuguesas na actualidade, sempre foram fiéis àquilo que na verdade é (era/foi) o Gothic Metal, são uma banda cheia de personalidade e alma, com uma carreira bastante sólida (desde o lançamento do primeiro longa-duração) que está para durar.

sábado, 12 de março de 2011

A Dream Of Poe - The Mirror Of Deliverance

Os A Dream Of Poe são uma banda portuguesa de Doom Metal com algum Death e Gothic incorporado, formaram-se em 2005 e são de Ponta Delgada (Açores). Depois do lançamento de uma Demo em 2006, um álbum ao vivo em 2008, de dois EPs: “Sorrow For The Lost Lenore” e o excelente “Lady Of Shalott” (lançado no ano passado), já era de esperar um primeiro álbum de estúdio. “The Mirror Of Deliverance” é o nome do primeiro longa-duração, foi gravado entre Janeiro e Dezembro de 2010, toda a parte instrumental ficou a cargo de Miguel Santos, os vocais foram gravados por João Melo cujas letras ficaram a cargo de Paulo Pacheco. As músicas do álbum nunca foram editadas anteriormente, com excepção da “Lady Of Shalott”, o álbum é composto por 6 temas que perfazem 51 minutos. A edição desta obra ficou a cargo da sempre respeitosa Arx Productions, da Ucrânia, também dos portugueses Insaniae.

Os A Dream Of Poe praticam um Doom Metal bastante variado, que vai do Gothic Metal ao Progressive Rock, passando pelo moderno Post Rock e pelo Death Metal, com partes bastante atmosféricas e por vezes melancólicas. Como principais influências podemos destacar: Paradise Lost, My Dying Bride, Novembers Doom, Anathema… por aí. Toda a parte lírica da banda é inspirada na literatura de Edgar Allan Poe. Na minha opinião este álbum atingiu um nível bastante superior àquilo que eu estava à espera, muito superior aos trabalhos anteriores, é um trabalho bastante sólido e coeso. A nível vocal este trabalho é bastante variado e muito bom, temos voz limpa nalguns casos, registo gutural e até declamações de poemas com uma voz cheia de raiva. É um álbum com construções melódicas do mais alto nível, com uma qualidade extrema. As guitarras bem melódicas, por vezes acústicas, criam ambientes melancólicos incríveis.

O álbum começa com “Neophyte”, uma música bastante assombrosa, com uma atmosfera negra fenomenal, muito triste, marcada pela intensidade da dupla de guitarras, é um tema com uns guturais melódicos e com a voz limpa. “Os Vultos” é um tema bastante arrepiante, lento, épico, cantado na língua de Camões, com uma poesia trágica e triste, é um tema em que o instrumental nos remete para a coadjuvação da melancolia do Doom e do Fado (mais a nível instrumental), a lembrar uns Ava Inferi. “Lady Of Shalott” foi um tema que deu bastante que falar anteriormente, devido ao lançamento do EP, caracterizado pelo jogo de vocais, por vezes em dueto (voz limpa/gutural), com uma voz aguda espectacular que se ouve ao fundo. Tem uma atmosfera Doom/Gothic soberba, com grandes leads de guitarra e partes únicas em que a melodia da guitarra “limpa” dá um toque especial à música, destaque para a parte final, em que a letra é falada e assim termina a música de uma forma fenomenal. “Liber XLIX” começa muito calmamente com a voz limpa e com uma melodia de guitarra muito contemplativa, mas isso muda rapidamente, quando “aparece” uma voz extremamente agreste, agressiva e cheia de raiva e desespero, uns guturais extremamente agressivos, é uma música marcada pelas várias mudanças de ritmo, destaque para o grande solo de guitarra. “The Lost King Of The Lyre” é uma música fenomenal, com uma sonoridade (mais) parecida ao EP anterior, com um riff inicial de guitarra espectacular que põe tudo em sentido. Para terminar temos “Chrysopoeia”, outro ponto alto do álbum, com mudanças de ritmo bem evidentes, e com um registo vocal bem variado. Atenção particular para aquela parte a meio, onde somos confrontados por uma voz calma e triste ao som da chuva, o álbum termina com o som calmo do piano a contrastar com uma bateria forte e agressiva.

“The Mirror Of Deliverance” é um álbum de estreia muito bom, que cresce com o número de audições, todos os participantes mas sobretudo Miguel Santos estão de parabéns, os A Dream Of Poe são mais outra grande referência do Doom Metal português que ao que parece, já anda a dar muito que falar no estrangeiro.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Insaniae - Imperfeições Da Mão Humana

Não podia acabar o ano sem publicar aqui a review de mais um grande álbum de Doom Metal vindo das nossas terras lusas. Os Insaniae são uma banda portuguesa de Queluz, praticam de Doom/Death Metal e formaram-se em 2003. Em 2006 lançaram o primeiro álbum “Outros Temem Os Que Esperam Pelo Medo Da Eternidade” que foi muito bem recebido pelos especialistas da matéria, e em 2009 partilharam um Split CD com os portugueses Mourning Lenore. Num ano marcado por grandes lançamentos de Doom no nosso país (refiro-me a Why Angels Fall, Mourning Lenore, A Dream Of Poe e Painted Black), chega “Imperfeições Da Mão Humana”, o segundo álbum de estúdio de uma das melhores bandas portuguesas de Metal. A edição ficou a cargo da editora ucraniana independente Arx Productions, saiu em CD, limitado a 500 cópias.

“Imperfeições Da Mão Humana” é um grande álbum de Doom/Death Metal a puxar para o gótico, na medida em que tem uma voz feminina que, neste caso me faz lembrar os velhos tempos de Theatre Of Tragedy, como outras influências posso referir: My Dying Bride, Mourning Beloveth, Draconian, Paradise Lost e até os portugueses Process Of Guilt. Todos os temas são cantados em português, e aqui, aplica-se a sonoridade “the beauty and the best” com a voz feminina de Isabel Cristina e os guturais agoniantes e desesperados de Diogo Messias. Neste álbum os Insaniae aventuram-se por caminhos mais melancólicos e atmosféricos, a qualidade em relação ao trabalho anterior é muito superior. Na primeira faixa “Absolvição” podemos ouvir a grande voz de Isabel, que na minha opinião se destaca mais nesta música que no fim tem um solo de guitarra lindo. “Tradição Ancestral” é muito especial, é na minha opinião a melhor faixa, onde a conjugação do piano com os restantes instrumentos é fantástica. De referir também o excelente trabalho da guitarra na música “O Covil” assim como os guturais que são extraordinários, e a bateria, que, com aquelas pequenas batidas torna a música única. “Acto Perfeito” é onde podemos ouvir o dueto de Isabel e Diogo ao mesmo tempo, ou se preferirem: a bela e o monstro.

Não é um álbum com algo de novo mas confesso que não estava à espera de tanta qualidade, e quando ouvi isto não parava de ouvir, é um álbum muito bom, embora me faça lembrar muitas bandas, o que nem acaba por ser mau de todo. É um álbum homogéneo, onde a sonoridade se mantém música após música e todas elas têm muita qualidade. Acho que cá em Portugal ainda não lhes foi dada a atenção devida, o que é no mínimo, preocupante.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Why Angels Fall - The Unveiling

De vez em quando damos de caras com obras de arte impressionantes, aqui está mais uma: “The Unveiling” dos portugueses Why Angels Fall. Sete anos depois do lançamento do EP “…To The Sun” os Why Angels Fall voltam com 2 temas gigantescos e absolutamente fenomenais que não dão para descrever completamente nesta curta review, estes senhores praticam um Melodic Doom Metal com algum Death à mistura, muito ambiental e com sonoridades muito variadas e complexas que fazem deste um álbum diferente, conceptual, espectacular e simplesmente único. Este álbum foi/é distribuído pela Bubonic Productions, aconselho vivamente à compra da Edição Especial Limitada, com um CD bónus, um livro sobre o estudo/conceito do álbum em questão, envolto num pano preto e uma corda, como se de algo eclesiástico se tratasse, até se trata, visto que contém passagens bíblicas e de mais livros religiosos…

O conceito deste grande trabalho é essencialmente a Teologia (nomeadamente cristã) que foi sempre uma referência nos primórdios do Doom Metal e estes senhores não fogem à regra, muitas passagens do álbum são partes do Antigo e Novo Testamento, muitas vezes recitadas de forma litúrgica, estas passagens transportam-nos para dimensões sem explicação, é algo espiritual: dum lado temos luz, com melodias de piano lindíssimas e voz feminina (estranhamente feita/conseguida por um dos guitarristas), no outro lado, melodias acompanhadas com o órgão de igreja e com uns guturais avassaladores que nos levam ao purgatório e a visões apocalípticas. Quero também dizer que este lançamento está disponível numa edição de 2 CDs que inclui um livro que explica todo o conceito do álbum, assim como o seu artwork fantástico. É um álbum difícil de “ingerir” porque os 2 temas têm mais de 30 minutos, não é um álbum para ouvir em quaisquer circunstâncias, é para descontrair, no meu caso, quando ouço isto é no escuro e com silêncio absoluto, algures entre o Paraíso e o Inferno, só assim, nestas condições é que faz sentido desfrutar e viajar por estes ambientes inexplicáveis que mexem com o nosso ser, o nosso interior. Todo o álbum é lento e marcado por uma atmosfera, com momentos muitos lentos e depressivos, outros encantadores, gosto muito do som da sitar na “The Unveiling” com aquelas vozes e sons que me lembram o Tibete, música Budista e afins, assim como acho extraordinário aquele piano lento e triste na “Neo Genesis”, nalgumas partes das músicas há momentos de total desespero em que há uma descarga emocional “explosiva”, temos momentos com guitarras distorcidas, momentos com vozes a sussurrar passagens bíblicas, guturais, vozes “limpas”, coros a acompanhar as mais determinadas vozes, enfim, vozes para todos os gostos. A bateria, embora discreta, acaba por ser o grande suporte destes ambientes fenomenais.

Repito: é álbum espectacular e único, muito difícil de “ingerir”, mas quando vivemos e entramos nas dimensões de “The Unveiling” é como se deixássemos o planeta terra e tivéssemos uma experiência com o Além. Os Why Angels Fall são uma das melhores bandas nacionais, com um nível de composição musical absolutamente fenomenal, e é certo que este álbum vai ficar na História do Metal nacional, anda a dar muito que falar lá fora, estes senhores tiveram a honra de participar no famoso festival de Doom Metal “Dublin Doom Day” na Irlanda, ao lado de grandes nomes do Doom como: Hour Of 13, Mourning Beloveth e Pagan Altar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mourning Lenore - Loosely Bounded Infinities

Já todos devem ter reparado na quantidade (qualidade) de bandas portuguesas de Doom/Death Metal ou só Doom nalguns casos: Before The Rain, Insaniae, Process Of Guilt, Löbo, Bosque, Dawnrider, Why Angels Fall, agora é a vez dos lisboetas Mourning Lenore com o seu primeiro longa duração, mais um para juntar ao excelente “leque” de Doom Metal, que é dos meus géneros preferidos. Os Mourning Lenore formaram-se em 2008 pela principal “figura” da banda João Galrito, em 2009 lançaram uma Split com os Insaniae intitulada “Daemonium 3rd Anniversary Celebration” que, se querem que vos dia, nem me aqueceu nem arrefeceu, a sonoridade dos Mourning Lenore tinha muita qualidade, mas não era nada de novo, até que passado um ano lançam “Loosely Bounded Infinities” que são 6 temas de Doom/Death Metal com alguma partes espectaculares mais Post Rock. Era um dos lançamentos que mais estava à espera este ano, os dois últimos temas são da Split, que, para este álbum foram regravados.

Na minha opinião houve uma grande evolução a esse Split para o álbum em todos os aspectos: a qualidade melhorou, as músicas têm mais sentimento, a originalidade e inovação aumentaram, e sobretudo aquilo que distingue o álbum é o feeling único que nos transmite. As músicas são longas mas não são secantes, muito pelo contrário, mudam muitas vezes de sonoridade e ritmo. As influências, temos várias: Mourning Beloveth, Process Of Guilt, Anathema, Novembers Doom, Paradise Lost. Todo este trabalho é marcado por uma atmosfera como a de uma manhã fria, até se pode ver na capa do álbum, traduz muito bem aquilo que são as músicas. Saiu no Outono, a época ideal, dias nublados, cinzentos, com pouco sol, tudo isso se traduz nos sentimentos que encontramos nas músicas: tristeza, solidão, raiva, desespero…

O álbum começa da melhor maneira, com “Contours Of A Dream” é na minha opinião a melhor música do álbum, a parte do “found again” é linda, aliás, toda a música está muito bem conseguida: lenta e triste, com momentos de solidão bastante profunda e os guturais de João Galrido são espectaculares, o instrumental é perfeito, e aquelas partes com a “voz” limpa são demais, uma grande aposta da banda que resulta muito bem, a juntar aos  pequenos mas simples e eficazes leads de guitarra, aquela parte da melodia no fim é a cereja no topo do bolo! A próxima música “Reminiscence” é mediana, só que na minha opinião peca por algumas partes que não estão tão bem conseguidas como noutras músicas, posso dizer que gosto do instrumental no início e da voz, estão muito bons, embora fique por aí.

O tema seguinte “Everlasting” é um excelente tema, começa com um grito de desespero e solidão tal que só quem já sentiu é que consegue imaginar alguma coisa assim, é incrível, a partir dos 2:49 minutos tem um solo de guitarra (lento) muito bom, e o riff final da guitarra é espectacular, uma melodia majestosa. “Unchained” é outro grande tema, começa com os grandes guturais de João e depois vem uma voz mais serena para o Post Rock com muita perícia, é uma música com uma grande estrutura musical, sem explicação, o refrão é fantástico “All the pain that I feel  / is still too much” combina na perfeição com os guturais, e aquela parte mais ou menos a meio, ambiental, é espectacular faz-me lembrar Alcest. A banda é capaz de juntar muitos géneros e sonoridades que resultam na perfeição. Para terminar temos duas faixas bónus: “Rain's Seduction” e “Patterns Of Emptiness” da Split com Insaniae, dois bons temas, embora na minha opinião não estejam ao nível do resto do álbum, a sonoridade é mais Melodic Death do que propriamente Doom/Death, mas são faixas bónus, de uma maneira geral não fazem parte deste trabalho.

Os Mourning Lenore estrearam-se da melhor maneira, um excelente álbum de estreia cheio de qualidade e talento, mais uma banda excelente no mundo do Doom/Death português e talvez mundial.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Triptykon - Shatter





















Tom G. Warrior tinha dito que ainda haveria outro lançamento este ano, e aqui está ele, um EP com 5 músicas, o ex-guitarrista e vocalista dos Hellhammer e Celtic Frost continua a dar que falar pelas excelentes músicas que faz. A sonoridade deste EP é como o álbum de estreia dos Triptykon “Eparistera Daimones”, embora não tenha músicas tão agressivas! Este lançamento é, todo ele, marcado por uma atmosfera desesperada, triste e agressiva, temas como pensamentos negros e negativos estão sempre presentes. 

A primeira música: “Shatter”, foi o primeiro video clip da banda, um excelente vídeo, muito original, dos melhores que vi até à data, este tema também é o tema bónus da edição japonesa de “Eparistera Daimones”, portanto esta música já não é nenhuma novidade para os fãs de Tom Warrior e companhia. A letra da música é depressiva e bastante triste “I don't want to feel, I don't want to see, I don't want to love, I don't want to live” em termos de sonoridade podemos definir esta música como um Doom/Death Metal, como algumas músicas do álbum, esta música ainda tem voz feminina. A segunda música “I Am The Twilight” é a grande novidade deste EP, adoro principalmente introdução, nem sei porque é que esta música não está no “Eparistera Daimones”, era uma uma excelente escolha incluí la, faz-me lembrar a “Abyss Within My Soul” e a “Goetia”, e tem um grande solo de guitarra, foi na verdade (como já disse) a que mais gostei neste EP. A seguir “Crucifixus” também não é novidade nenhuma, já andava na Internet há uns meses, a única diferença é que esta versão tem uma masterização diferente, os retoques finais necessários, é instrumental, é uma música muito ambiental, de vez em quando ouvem-se umas vozes de fundo assustadores e deprimentes, como na música “My Pain”, é uma música que aprecio bastante. Os Triptykon deviam apostar mais neste tipo de efeitos e músicas, são espectaculares. Para terminar temos 2 excelentes temas de Celtic Frost ao vivo no Roadburn Festival, na Holanda, em Abril de 2010, as músicas são dois clássicos “Circle Of The Tyrants”: do álbum To Mega Therion e “Dethroned Emperor”: do EP Emperor's Return ambas as músicas estão muito bem tocadas, interpretadas de forma um pouco diferente da original, ambas com uma excelente qualidade, tocadas e cantadas por quem as sabe melhor que ninguém… A “Dethroned Emperor” conta com a participação especial do vocalista dos Darkthrone: Nocturno Culto.

É mais um grande lançamento, simples, mas muito bom. Os Triptykon são a banda revelação de 2010, para quem pensava que os Celtic Frost tinham acabado têm aqui mais 4 músicas para acrescentar ao fantástico “Eparistera Daimones”, podem adiquiri-lo em formato de CD, LP ou Download Digital.