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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Dr. Salazar - Antes & Depois

Oriundos da Amadora e nascidos em Outubro de 2001, os Dr. Salazar são constituídos por Manuel Albuquerque (voz), Marco Moura (guitarra), Dim Costa (guitarra), João Mendes (baixo), RJ (baixo) e Pedro Neto (bateria). Iniciaram a sua actividade ao vivo a 6 de Julho de 2002 no IPJ de Lisboa, seguindo-se uma série de concertos e de participações em festivais de música moderna, um pouco por todo o país. Lutando contra as dificuldades normais de uma banda, acrescidas pela adopção do nome polémico, o projecto desenvolveu-se numa base de determinação e auto-edição. Sem fazer a apologia do “ditador”, abordam-se assuntos da ditadura e da democracia e crítica social sem politizar a música, num som pesado de cariz Industrial. Foi em meados de 2005, sem medos e sem vontade de se subjugarem perante a mentalidade conservadora e retrógrada do país, que os Dr. Salazar lançaram o seu primeiro longa-duração “Antes & Depois”, auto-financiado, sucessor do EP “Dedo Na Ferida”, lançado no ano anterior.

“Antes & Depois” (como a banda referiu na entrevista) é a contraposição da Ditadura e da Democracia o que é que ambas têm de bom e de mau, o que é que mudou, o que é que nunca muda. É um álbum que se caracteriza por um som bem definido (comparando com o “Dedo Na Ferida”), simples e (mais) pesado, um pouco mais sujo e agressivo (comparando com o “Lápis Azul”) e claro, por uma qualidade e um sentimentalismo enorme conjugado a uma parte lírica muito bem trabalhada, desde as palavras que são transmitidas, à forma como são transmitidas, com uma intensidade crítica enorme (digamos, uma ataque) sobre o Estado Novo.

Falando da música: a voz do Manuel, seja num tom falado ou num tom mais agressivo é impressionante, adapta-se na perfeição a todo o instrumental. As guitarras são bem distorcidas, os ritmos são pesados e rudes. E claro, não me podia esquecer dos toques industriais e electrónicos que fazem toda a diferença nos temas. O álbum começa da melhor forma com aquele que é para mim um dos melhores temas: “Culpa Do Sistema”, que teve a direito a um video clip. Destaque também para a emblemática “Sensação FDP”, um dos temas mais conhecidos da banda. “Revolta Dos Povos” é outro grande tema com uma letra bastante realista e triste, com uns riffs e solos de guitarra espectaculares. “Ventania De Mudança” fala da revolução do 25 de Abril, do antes e depois, instrumentalmente caracteriza-se por uma melodia de guitarra pesada e suja, realce especial para a letra “Quando veio a ventania / levantou a poeira toda / secando o curto horizonte / e vieram utopias / em fúria fomos para a rua / e fomos caindo lentamente”.

“Falar Do Mendigo” é outro grande tema com uma letra bastante sentimental, onde a banda aborda (penso eu) o pós-25 Abril, sobre os mendigos que não deixaram de pedir, os que lutam que não deixaram de lutar… Destaque para o grande solo de guitarra e para as linhas do baixo que sempre foram uma coisa que adorei nesta banda. “Tarrafal” é também outra faixa já bastante conhecida da banda, já vem do tempo do EP, e fala dos presos políticos e etc. É uma faixa pesada e com um refrão bastante emblemático, uma óptima escolha para ser tocada ao vivo. Outra grande música é sem dúvida a “Cais Da Rocha” com um início fenomenal com um lead de guitarra de cortar a respiração, destaque para a letra e para o refrão bastante profundo (o Manuel sabe bem como tornar as músicas únicas com aquela voz espectacular), e para aquele lead de guitarra que se vai ouvindo (e bem!) ao longo da música. O CD não podia terminar melhor se não com “Veterano De Guerra”, onde a banda explora o seu lado mais calmo e limpo numa balada espectacular e única, com um piano de fundo soberbo. Não gostei das faixas “Face Que Temos” e “Política / Lixo”.

“Antes & Depois” resume-se a um álbum absolutamente único, arrisco-me a dizer até que este é um dos melhores álbuns realizados em Portugal nos últimos anos, composições pesadas, simples, um grande vocalista, um baixo divinal e um carácter interventivo impressionante. É também um álbum que cresce com o número de audições, há vários pormenores (que fazem uma grande diferença) que só nos apercebemos ao fim de várias audições. Não vou estar aqui com histórias de que eles mereciam mais reconhecimento, já todos sabemos essa história e já é um tema mais que debatido. Honestidade, simplicidade, sinceridade e atitude, aliadas a um grande som e uma grande mensagem, são o mais importante.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Entrevista: Dr. Salazar

Antes de passar às partes mais “importantes”, diz-me como e em que circunstâncias se formaram os Dr. Salazar?
Eu vinha de outro projecto com um elemento que fazia máquinas e sintetizadores, Carlos Marques, fizemos o arranque dos Dr. Salazar com o já distante EP “Dedo Na Ferida”, isto após uma ronda significativa por diversos concursos/festivais de bandas. Por esta altura (2002/2003) havia muitos eventos do género por todo o país e também muitas bandas, daí termos optado por um trabalho diferente, cantar em português sem estrutura convencional à procura de um caminho, para sermos mais uma banda não valia a pena, com todo o respeito pelos outros projectos obviamente. Escolhemos também um nome polémico e fez todo o sentido porque o “core” do projecto assenta na crítica social ainda por cima a falar de regimes, ditaduras, da Guerra Colonial e por aí fora. Devo confessar que prevíamos alguma hostilidade ao nome como veio mesmo a acontecer, felizmente hoje já um pouco dissipada. Por fim a opção clara de escrever em português, caramba temos uma das línguas mais faladas do mundo, sem que isto seja uma rejeição aos outros idiomas.


Quem são os Dr. Salazar?
Os Dr. Salazar são: Manuel D'Albuquerque - Voz e máquinas (em off), Pedro Neto - bateria e guitarra (em off), Marco Moura - guitarra, Dim Costa Neto - guitarra, João Mendes - baixo (em estúdio e metade dos concertos), RJ - baixo (ao vivo, outra metade dos concertos). Os Dr. Salazar não primam por formações estáveis embora exista sempre um núcleo duro formado por Manuel D'Albuquerque, Pedro Neto e Marco Moura desde o início. Os baixistas já colaboram com a banda há um tempo significativo, o caso do Ricardo João que vem da formação inicial e o João Mendes que é técnico de som e membro dos estúdios Thape em Loures. Ambos alternam/emprestam 1/2 do tempo aos Dr. Salazar, mas às vezes perdemos concertos por não estar nenhum disponível. Durante o álbum “Antes & Depois” e por um período de 2 anos tivemos um terceiro baixista José Ramos. O Dim Costa Neto é um guitarrista que aparece no álbum “Lápis Azul”, isto por força de eu ter passado apenas para a vocalização, uma vez que até aí tinha também a cargo a segunda guitarra da banda. Mas há uma ausência sentida de um elemento fundador, o Carlos Marques (máquinas e sintetizadores) que abandonou por razões pessoais e trabalhou até ao álbum “Antes & Depois”, mas já não fez as apresentações ao vivo. Daí para a frente assumi eu as funções sendo já responsável pelas máquinas no álbum “Lápis Azul”, mas trabalho em off, e por isso nos apresentamos ao vivo sem essa parte, é uma lacuna que havemos de resolver, há-de aparecer um bacano um dia, aquilo a que se chama na gíria das bandas, um maquineiro.


Devido ao nome polémico, foram proibidos de actuar em certos sítios e verifica-se uma certa tendência para serem ignorados por certos órgãos de comunicação. De uma forma geral, fala-nos de várias situações que tenham ocorrido.
Proibidos declaradamente não fomos propriamente, sentimos que fomos evitados, não éramos bem-vindos com um nome daqueles, lá o que dizia-mos não era importante, não podíamos era ter um nome que representa o fascismo. Era isto que nos faziam sentir e era o que expressavam por vezes na nossa cara, episódios vários sobre os quais já falámos o bastante mas há outro lado que não se vê, que não se retrata em episódios, é a censura muda ou surda, é o compadrio da cultura, quem não é da cor não tem expoente, vector reflectido numa simples escolha de cartaz para um evento ou no acesso à maioria dos eventos municipais.


Todas essas situações fazem com que as vossas aparições ao vivo sejam um pouco esporádicas. Como é que têm sido os vossos concertos e como é que tem sido a recepção do público?
Sobre as apresentações ao vivo até poderiam ser mais, todas as bandas podiam tocar mais, se não tivessem que pagar as despesas, ou seja, pagar para tocar: PPT, como já se diz por graça. Salvem-se alguns clubes ou pessoas que sabe-se lá às vezes com dificuldades lá vão ajudando as bandas no estrago, percentagens de porta, ou de bar, vários são os modos da coisa ir rolando. Sobre os nossos concertos, depende um pouco do evento, se é ao ar livre o show é melhor porque usamos pirotecnia, mas se for numa sala estamos mais em frente ao público e às vezes é gratificante quando aderem, cantam connosco, eu gosto disso! De um modo geral quando estão num evento de Dr. Salazar pela primeira vez ficam um pouco apreensivos, estáticos, parece estranho (a tal diferença) e isso é o primeiro passo.


Os Dr. Salazar não tem vínculo de qualquer editora, já apareceu alguma para um próximo lançamento?
Nunca na nossa existência fomos abordados por qualquer editora, nunca ninguém manifestou por nós o menor interesse em lançar ou promover o que quer que fosse. Tudo o que editámos, gravámos, promovemos, foi do nosso bolso com algum retorno também, mas longe do equilíbrio. É este o nosso caminho, o da autopromoção e pelo meio uma ajudinha duns bacanos sem preconceitos que abordam o nosso trabalho e nos vão proporcionando algumas oportunidades.


Apesar de todos os problemas, os Dr. Salazar nunca “desistem”. Qual é o balanço que fazes da vossa carreira?
A música não é uma coisa da qual se desista, quem a tem por dentro nunca a larga e isto é extensivo a pessoas que não são músicos. Há uma partilha neste sentimento, sente-se e mais nada. A carreira dos Dr. Salazar é pautada como já referi pela auto-suficiência, sem agentes, sem editora e por consequência sem furar o circuito onde é mais importante, entenda-se exponencial, não estamos onde gostaríamos de estar, mas também temos noção de que praticamos um alternativo sonoro que não é propriamente um pacote comercial atractivo, que motive investimento, e sobre a cultura não vale a pena falar. Para nós o que é gratificante é chegar a um concerto e ter o pessoal a cantar o refrão connosco, isso sim dá pica e faz esquecer a despesa e carregar o equipamento para o estúdio às tantas da noite.


Quais foram as principais diferenças no processo de gravação do “Antes & Depois” para o “Lápis Azul”?
O “Antes & Depois” foi gravado nos estúdios Namouche - Lisboa com um pacote financeiro a respeitar, embora em condições técnicas de qualidade, não podíamos abusar no tempo enquanto que o “Lápis Azul” foi gravado no estúdio Thape - Loures, do qual o baixista João Mendes é membro e o benefício é amplamente reconhecido. No fundo tivemos mais tempo para trabalhar mas demorámos muito entre o primeiro e o segundo álbum.


Do “Antes & Depois” para o “Lápis Azul” nota-se uma certa evolução, os temas são menos sujos, mais leves, complexos e emocionais, em que os mais pequenos pormenores electrónicos fazem uma diferença enorme. O que é que podemos esperar do próximo álbum? Vai ser mais “pesado” que o Lápis Azul?
É uma produção diferente e noutras condições técnicas, o “Lápis Azul” foi um álbum maturado, alterámos muita vez os temas e não há dúvida que as máquinas tornam o álbum mais leve mas as guitarras tão lá na mesma em força e com um trabalho maior uma vez, pela primeira vez recorremos a afinações específicas. Tudo aponta para que o terceiro álbum de originais venha mais pesado, mais dinâmico, isto por força da experimentação ao vivo. O nosso concerto tem temas de ambos os álbuns e eles são escolhidos um pouco em função do resultado ao vivo de uns concertos para os outros, aprende-se a ver o que o público quer.


Na hora de compor os temas o que é que te inspira mais?
Não tenho hora para compor, acho que ninguém tem, isso é uma coisa que nos sai no sítio e na hora mais estranha, ir a correr pegar na guitarra para fixar uma ideia é a coisa mais comum nos músicos. Às vezes levam-se uns textos ainda mal amanhados para o ensaio e deixamos a coisa fluir. A temática aqui nos Dr. Salazar é a crítica social, começámos por abordar a Guerra Colonial e isso tinha a ver com o regime de Salazar, o álbum “Antes & Depois” é a contraposição da Ditadura e da Democracia o que é que ambas têm de bom e de mau, o que é que mudou, o que é que nunca muda. No “Lápis Azul” mantém-se a temática, fala-se da censura (antes e depois) de Abril entenda-se “Aqui D'Hell Rei” mudaram a lei já fui enganado, ainda uma referência á Guerra Colonial com o Lar de Mutilados (tema “Casa da Vergonha”) e alguns temas de ensaio à auto-reflexão, não temos que estar sempre a meter bocas de protesto no refrão, podemos abrir outras portas.


Qual é a mensagem que pretendem transmitir com “Lápis Azul” e o porquê desse título?
Numa altura em que se questiona tanto a comunicação social, que influencia têm os grupos económicos, o jogo das direcções, quem são os órgãos credíveis. O “Lápis Azul” era o instrumento de censura de Salazar, então e hoje? Quais são os instrumentos? Quantos lápis azuis se calhar já digitais, existem hoje? A censura estará mais refinada mas não acabou e também falamos dos “Casos” de justiça que não se resolvem porque não convêm resolver, acho que escolhemos bem o título “Lápis Azul” como dizemos na letra, agora com “outras cores”.


Onde podemos encontrar os vossos álbuns à venda?
O álbum “Antes & Depois” já é difícil de encontrar, foi distribuído pela Música Activa que já fechou mas a banda ainda disponibiliza alguns. O “Lápis Azul” é distribuído pela Compact Records e supostamente estará disponível nas áreas comerciais tipo Fnac e também nas lojas mais ligadas ao Metal: Piranha, Carbono, Louie, Xaranga etc. Já agora para apreciadores fiquem atentos aos próximos passatempos da LOUD! onde haverá álbuns e t-shirts dos Dr. Salazar.


Por fim, querem deixar algumas palavras?
Por fim queremos deixar um forte abraço a todos aqueles que não tiveram preconceitos com o nome da banda e partilharam connosco um espaço onde pudemos expor e divulgar o nosso trabalho. Destaque para o mais recente concerto dos Dr. Salazar no Santa Maria Summer Fest em Beja organizado pelo presidente da junta de freguesia Victor Paixão, é um gentleman de fala directa e camisola preta ostentando o Fest da sua paróquia. Fez uma recepção à rapaziada das bandas (9) digna de registo, era os músicos, era os amigos, todos eram bem-vindos, ninguém ficava de fora no Fest, era a comidinha era a bebidinha era a metalada. Parabéns Victor Paixão e a todos. Pró ano será o 3º Summer Fest em Beja.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Dr. Salazar - Lápis Azul

Os Dr. Salazar são uma banda portuguesa de Industrial Rock/Metal, são oriundos dos arredores de Lisboa e iniciaram as suas actividades em 2001, são liderados por Manuel D’Albuquerque e politicamente são o oposto ao regime Salazarista, liricamente as músicas são de crítica à sociedade actual e à do Estado Novo: Ultramar, colónias, Salazar… O primeiro concerto destes senhores foi em Julho de 2002 numa apresentação no IPJ Lisboa. Após a primeira actuação da banda seguiu-se uma série de participações em concertos, festivais e concursos de bandas, granjeando assim uma boa cota de prémios. Em 2004 lançam o primeiro EP intitulado “Dedo Na Ferida” e em 2006 lançam o primeiro longa-duração “Antes & Depois” que foi muito bem alcançado recebendo críticas bastante positivas. Devido ao nome, os Dr. Salazar foram alvos de certos boicotes e chegaram a ser proibidos de actuar nalguns locais, o que chegou a ser notícia nalguns jornais nacionais. Em finais de 2010 a banda lança o segundo álbum de estúdio, intitulado “Lápis Azul”, que segunda a banda: a acutilância do costume aliada a um som mais maduro fazem deste “Lápis Azul” um digno sucessor de “Antes & Depois”. A edição ficou a cargo da Thape Records e a distribuição é assegurada pela Compact Records.

É um álbum bastante sólido de início ao fim, todo ele cantado e por vezes falado (como se se estivesse a recitar um poema) em português. É um álbum bastante caracterizado pelo uso de sintetizadores e efeitos diversos, assim como o peso das guitarras, que às vezes contrastam com partes acústicas lindíssimas, como baladas, que, apesar de não serem românticas têm um sentimento inexplicável. “Casa Da Vergonha” é o primeiro tema, caracterizado pelos riffs de guitarra, é um tema bastante dinâmico, em que a meio há uma paragem para uma passagem acústica espectacular, é um tema que fala do ambiente dos hospitais militares da guerra colonial. “Aqui D'Hell Rei” é uma música bastante melódica, cujo assunto se debruça sobre a dependência de Portugal de outros países. “Lápis Azul” é uma música espantosa, com uma linha de guitarra limpa que rapidamente se torna mais agressiva, um tema bastante original, destaque para o som do baixo. “Do Ponto Mais Alto” é outro tema cujo início é marcado por uma guitarra limpa e pelo uso de sintetizadores. “Casos” é uma música mesmo muito boa, com grande nível, com uma letra que se abate sobre a Justiça portuguesa, com um som de guitarra relaxante e hipnotizante, no final ainda temos um solo de guitarra espectacular. “Todos Querem Falar” é a penúltima faixa do álbum, marcada pelo uso das guitarras e pelo uso de sons electrónicos, e é mais outra música grandiosa. Destaque para Expressão / Revolução, um tema bastante rápido e sujo, o mais pesado do álbum. “Anormalia” é a última faixa, e ideal para terminar este lançamento, uma faixa bastante atmosférica e ambiental. 

Os Dr. Salazar são uma das melhores bandas nacionais da actualidade, cantam em português e têm uma veia poética espectacular para fazer estes temas. “Lápis Azul” é um grande álbum e deveria ser mais conhecido e impulsionado para o mercado nacional.